terça-feira, 6 de outubro de 2009

MILONGA


O termo milonga é de origem africana e significa 'palavra'. Designa um gênero musical que surgiu no século 19 e foi cultivado pelos gaúchos argentinos. De início, era música exclusivamente cantada, pelos 'payadores', acompanhados pela guitarra. Mais tarde, tornou-se uma dança; 'ir à milonga' significa ir bailar. Neste sentido, a milonga precedeu o tango, embora este último tenha obtido projeção mundial. Milonga foi o título que Tony Cartano, romancista e editor (grande divulgador da literatura brasileira na França) deu a seu romance, publicado pela Albin Michel em Paris e lançado no Brasil (com tradução de Procópio Abreu) pela Record (352 páginas). A obra gira em torno a três personagens, descendentes de uma família marcada pelo conflito. Como muitos outros argentinos, Gabriel, Rafael e Estefânia Ortega passaram pelo exílio na Europa. E os três procuram na arte (a fotografia, a pintura, a dança) não apenas uma forma de expressão como também uma compensação, um consolo para as agruras pelas quais passaram e passam. Gabriel e Rafael acabam retornando a Buenos Aires, onde lhes aguarda um reencontro com o trágico passado, agravado pela incompatibilidade que os separa (Gabriel é, a propósito, o criador de um espetáculo de grande sucesso, a Milonga que dá título à obra). Da relação entre estes personagens e vários outros que vão emergindo da narrativa, nascem os diálogos, que são o ponto alto do livro e que podem ser definidos como uma espécie depsicanálise (claro que na história não falta um psicanalista) da Argentina atual. Não deixa de causar admiração o fato de Milonga não ter sido escrito por um autor argentino residente no país. O distanciamento geográfico, porém, não impede que Tony Cartano tenha uma perfeita visão da Argentina. Aliás, é interessante lembrar que muitos escritores argentinos, e Julio Cortázar disto é um exemplo, escreveram grandes textos sobre seu país quando exilados no Exterior. Porque a Argentina não é só um país; a Argentina é um estado de espírito, o que ficou tragicamente evidenciado durante os anos de ditadura e no período que a esta se seguiu. Aliás, deve-se dizer que a Argentina enfrentou o desafio de exorcizar os espectros do autoritarismo com mais determinação que o Brasil; mostra-o o cinema, que começando com A história oficial produziu filmes antológicos sobre odoloroso tema (é verdade que a ditadura lá foi muito mais sangrenta). No entanto, o período pós-repressão envolveu (como no Brasil), um anti-clímax, uma situação de perplexidade, e é isto que Tony Cartano mostra muito bem. Serve de exemplo a fala de Gabriel: 'Somos um povo sinistrado. E mesmo assim, apesar das passeatas, das explosões de cólera, das porradas, do estupor e da fome, a vida continua. (...) Na televisão, as novelas do Brasil e da Venezuela alternam com reality shows em que as pessoas se matam na esperança de um emprego, em que ganhar o bolão significa simplesmente conseguir um contrato de trabalho'. Mais adiante Gabriel transcreve a frase de um vendedor de jornais: 'Até os cegos têm os olhos vermelhos... de vergonha'. E comenta, para finalizar: 'Meus compatriotas são todos stars. Mesmo com cento e cinqüenta dólares de renda, acham-se tão bem pagos quantoas estrelas da tevê ou do futebol. Nossos psicanalistas inventaram, é claro, um truque para falar disso: 'a neurose do vedetismo'. ' É claro que existe aí um componente de baixa auto-estima, que também não é raro no Brasil e que representa uma espécie de contrapartida ao ufanismo que durantemuito tempo dominou a América Latina e que, no Brasil, teve sua maior expressão na obra do Conde Afonso Celso, Porque me ufano de meu país. De qualquer modo, Milonga faz o leitor pensar. Não por coincidência, a epígrafe do livro é de Jorge Luis Borges: 'Não nos une o amor, mas o terror; deve ser por isso que a amo tanto'. Em nossos países, amor e terror se superpõem, fazem parte de nossa realidade - uma realidade que precisamos desesperadamente entender. E para isso, a obra de Tony Cartano é uma grande ajuda.

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